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  • Laila Rotter Schmidt

Papo com Fabio Salmoni - Umcomum

Conheci o Fábio no CIDI, no final de 2017 em Natal/RN, e fiquei impressionada com a proposta do Umcomum: ser um "escritório de design que fomenta a consciência social, transparência e respeito entre pessoas e empresas". Não é demais? Eu nunca tinha ouvido falar de um escritório que estivesse focado em apoiar projetos sociais, e quando definimos o tema do Concurso 004 Desigualdades e as Cidades, cuja proposta foi criar um painel urbano sobre desigualdades sociais, pensei nele na hora.

Agradeço muito ao Fábio pela sua disponibilidade e generosidade em participar deste concursos como jurado, e também de bater um papo de projeto com a gente.


1. Vocês já participaram ou costumam participar de concursos de design? Qual é a importância desta prática para vocês? Como empresa, participamos pouco de concursos de design, mas na medida o possível tentamos estar sempre alertas e atentos aos concursos, não só de design, mas também de estruturação de projetos do universo de impacto social. Editais que visam fomentar projetos e organizaçoes que tem alto potencial de impacto são frequentes e consideramos muito importante que designers e escritórios de design também participem deste tipo de chamada, pois a carência de um olhar técnico de design como projetistas - no sentido mais amplo da palavra, como solucionadores de problemas que buscam atuar e alterar contextos para que eles sejam mais favoráveis a públicos de interesse que estejam em situação de vulerabilidade - é muito grande. Desta forma participamos de editais juntos com organizaçoes que estejam na linha de frente de problemas sociais, economicos e culturais, desenhando e modelando projetos em conjunto. Além disso, sabemos da importancia de participar de concursos de design em si, pois isso não só aumenta nossa visibilidade como designers, mas também possibilita aumentar a visibilidade de clientes e parceiros, como foi o caso do Spindow, uma ferramenta de ensino de línguas que desenhamos e com o qual ganhamos uma premiacao importante do European Product Design Award. Também é uma ótima maneira de estar atualizado com tendencias e inovações, balizando a qualidade dos trabalhos de design em geral. 2. Como vocês vêem o papel do design no contexto social? Como os designers podem contribuir para um mundo melhor? O design tem um papel crucial e fundamental na resolução de problemas sociais porque o cerne do design é o desenho de interfaces que fazem a intermediação da relação entre as pessoas e o mundo, alterando o contexto em que atua. De maneira geral consideramos que o design tem como definição mais abrangente a resolução de problemas, e a beleza desta definição é que todos podem ser designers. Não é uma ferramenta exclusiva e excludente, mas sim um modelo mental que pode beneficiar absolutamente todos que tem o desejo de atuar sobre o entorno com o intuito de otimizar processos ou melhorar as relações das pessoas com outras pessoas, com seus artefatos e com o mundo que as cerca. Essa é também a responsabilidade de todo designer, pois por lidar diretamente com anseios, dores, desejos, vontades, sentimentos e experiências, temos uma grande influência na vida das pessoas, para o bem ou para o mal. Uma decisão de projeto errada pode afetar negativamente a vida de pessoas tanto quantitativa quanto qualitativamente, assim como boas soluções de projeto podem melhorar vidas inteiras. 3. O que faz os olhos brilharem ao ver o portfolio de um estudante em um processo seletivo para trabalhar com vocês? Há alguma dica para quem está começando e procura colocação no mercado? Vemos que muitas vezes os alunos focam mais no resultado final de um projeto, mostrando os materiais finais com identidades visuais aplicadas ou modelos tridimensionais hiperrealistas, mas que não contam nem um pouco o processo que levou àquele resultado. A linha narrativa, o caminho percorrido, os erros e aprendizados, são as partes que mais nos interessam ao conversar com potenciais colaboradores do Umcomum porque a parte valiosa do nosso trabalho está no quanto conseguimos agregar intelectualmente aos produtos, serviços e negócios de nossos clientes e parceiros, e menos na beleza estética do produto final (ainda que isso também seja muito importante). Ensinar ou aprender a mexer em softwares é uma tarefa fácil, que só depende de tempo, quando comparado com o esforço que precisa ser empreendido para mudar um modelo mental. Por isso, a dica que damos é que os estudantes estejam tão atentos aos seus erros e aprendizados que acontecem ao longo do desenvolvimento de um projeto quanto à apresentação final de um trabalho.

4. Como é o processo criativo de vocês no Umcomum? É algo mais individual ou colaborativo? No Umcomum utilizamos partes de métodos e processos diferentes, de Design Centrado no Ser-humano da IDEO e Design Thinking da escola Stanfordiana até partes da Teoria U e outras metodologias de gestão de projeto. Dentro dos processos de design centrado no ser-humano há momentos mais individuais de análise de dados e outros momentos mais colaborativos, não apenas para ideação, mas para pesquisa, refinamento das ideias, compartilhamento de insights e outras atividades que se beneficiam muito com a construção de um ponto de vista coletivo. De maneira geral, primamos pela colaboração ao máximo, e acreditamos que sempre que for possível a colaboração é benéfica e saudável. E não apenas entre os membros da nossa equipe, mas também buscamos incluir no processo diferentes públicos de interesse de acordo com as temáticas e projetos dos quais participamos. Só assim é possível chegar a resultados verdadeiramente genuínos e com muito mais chances de serem abraçados por todos que serão afetados de alguma forma pelo resultado do processo, seja um produto, um serviço, um sistema, uma interface ou um ambiente.



Comunicólogo pela ESPM e designer pela USP, como sócio do Umcomum já coordenou projetos de design e comunicação dos três setores e tudo que há entre eles, estimulando e acreditando na colaboração como ferramenta essencial para a inovação social. Segue um objetivo: descobrir o que faz gente ser “gente”, nos quatro cantos, e dar voz para o mundo de cada um. Um sonho de quem acredita que onde existe interação entre pessoas e o mundo existe design.

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